domingo, 21 de fevereiro de 2010

Se eu pudesse...


Salvador Dali, Horseman Death

Hoje as palavras estão manchadas.
Tal como as nódoas que teimam em não sair, em deixar marca, em alterar o tecido, também as palavras revelam a mesma capacidade. Marcam-nos, alteram-nos o tecido físico e emocional, deixam-nos uma marca definitiva.
Há dias em que gostaria de não existir na palavra.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A propósito das línguas





Não é por acaso que hoje em dia se fala muito da importância e necessidade de conhecer várias línguas. Sem entrar em promiscuidades é, no entanto, certo que quanto ao tamanho as há de todo o género: afiadas, compridas, de trapo, de palmo e meio, viperinas...
O que me parece importante é fazer algo com a língua, como, por exemplo, desprendê-la, desenferrujá-la, pô-la em forma, exercitá-la para que dela se tire o devido proveito.
Actualmente fala-se muito mal. Mal-diz-se. Não se conhece a própria língua; às vezes até nos parece estrangeira. Deve ser por isso que aprender línguas é cada vez mais difícil. Ouvem-se os professores, queixosos e deprimidos, dizer que os seus alunos sabem cada vez menos e têm cada vez menos competência na língua. Afinal onde pára a língua? Em que altura do seu crescimento é que os nossos alunos deixaram de usar a língua e passaram a (ab) usá-la? E os professores, seremos nós capazes de (re) usar a língua?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Matéria


Foto: Man Ray, Dust breeding

Esta matéria negra de que sou feita,
fermenta no vazio.
Fere.
Despe a alma.
Alimenta.
Estilhaça em silêncio.
Uma semente maligna
germinando em terra fértil
cheia de nada
nada!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

De nada servem o calor da luz e a frescura da noite


Jan Van Goyen, Windmill

Pranto de Ménon por Diotima

Todos os dias saio em busca de algo diferente,
Demandei-o há muito por todos os atalhos destes campos;
Além nos cumes frescos visito as sombras,
E as fontes; o espírito erra no cimo para a planície,
Implorando sossego; tal como o animal ferido se refugia nas florestas,
Onde antes repousava pelo meio-dia à sua sombra, fora de perigo;
Mas o seu verde abrigo já lhe não dá novas forças,
O espinho cravado fá-lo gemer e tira-lhe o sono,
De nada servem o calor da luz nem a frescura da noite,
E em vão mergulha as feridas nas ondas da torrente.
E tal como é inútil à terra oferecer-lhe o agradável
Erva curitiva e nenhum zéfiro consegue estancar o sangue que fermenta,
O mesmo me acontece, caríssimos! Assim parece, e não haverá ninguém
Que possa aliviar-me da tristeza do meu sonho?
(...)

Hölderlin, Elegias

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O fim da paralesia!

Jorge Molder


Esta semana li um artigo na revista Visão sobre "A Ciência da decisão". Deixo alguns excertos para reflectir:

"Treinamos procedimentos , mas é impossível treinar a resposta a emoções.

A neurociência tem vindo a mostrar que também nas nossas cabeças, com raras excepções, não há preto e branco, mas antes, cinzento.

Às vezes precisamos de racionalizar as nossas opções e analisar, cuidadosamente, as possibilidades. Outras vezes, necessitamos de dar ouvidos às nossas emoções. O segredo reside em saber quando usar os diferentes estilos de pensamento. Precisamos de pensar, continuamente, sobre a forma como pensamos.

Quantas mais decisões as pessoas tiverem tomado anteriormente, maior será a sua capacidade de decidir.

Em situações de grande tensão, o cérebro escolhe o caminho mais fácil, poupa energia seguindo o princípio físico da energia mínima, e opta pela rotina.

As reacções emocionais só são mais acertadas quando se trata de situações sobre as quais temos um enorme conhecimento, uma grande experiência ou, ainda, em acasões de perigo. Mas dizer, em geral, que as decisões emocionais são mais acertadas é um disparate. Tudo depende da experiência, do tempo que temos para tomar a decisão."



Chega de paralesia na minha vida.

http://www.youtube.com/watch?v=jytXXLFwjmY

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dias de cor feliz!

Jasper Johns - The gray areas

Abro um traço preto no branco do meu descontentamento.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Caminhos de risco

Paul Klee - "Caminhos Principais e Caminhos Secundários", 1929

Depois de um dia excessivamente longo que culminou com uma formação sobre comportamentos de risco, dei por mim a pensar como gostaria de riscar do mapa o dia de ontem.
Como ultimamente me apetece riscar muitos dias da minha vida, posso até estar perante um comportamento de risco. Espero que o meu lápis não se parta!
Não sei o que está a acontecer à classe docente. Por vezes, tenho a real sensação de que, com a idade, caminhamos para a estupidificação. Disponibilizamo-nos a tudo (em nome de quem?para quê?) até mesmo a alinhar em estratégias que, em vez de nos formarem nos deformam ainda mais a inteligência. Ontem estive a atirar um novelo de fio aos colegas (não o fio de Ariadne!) no intuíto de os conhecer melhor. Desenhou-se um labirinto de fios, uma rede (tão na moda!), em que todos (aranhas cegas!) lhe segurámos numa ponta e, em pura comunhão ,pudemos sentir as vibrações uns dos outros. Um verdadeiro momento de risco levado à letra!
Parece-me que, para muitos de nós, onde evidentemente me incluo, já não há uma linha nítida entre "caminhos principais e caminhos secundários". A fronteira é de tal forma pálida e esfumada que nos tornamos cada vez mais indefinidos.
Ontem aprendi que, na minha profissão, pensar é um comportamento de risco.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Indecibilidades


Escher

Sobre o teorema da incompletude...

Teorema 1: "Qualquer teoria axiomática recursivamente enumerável e capaz de expressar algumas verdades básicas de aritmética não pode ser, ao mesmo tempo, completa e consistente. Ou seja, sempre há em uma teoria consistente proposições verdadeiras que nao podem ser demonstradas nem negadas."
Teorema 2: "Uma teoria, recursivamente enumerável e capaz de expressar verdades básicas da aritmética e algumas verdades de probabilidade formal, pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.".

De caras !


A rede social Facebook é um fenómeno que, ultimamente, me tem feito pensar sobre as alterações que a tecnologia provoca nos comportamentos humanos.
Antes era importante haver uma figura "real" à nossa frente, com quem conversar, dar a cara, discutir sobre diferentes pontos de vista, ideias e ideais. A necessidade de contacto físico,tão importante para o ser humano, está a ser, progressivamente, substituida pelo contacto virtual.

Afinal, o que leva tanta gente a aderir a esta rede social?

Surgem-me, de imediato, várias razões possíveis: a novidade (tudo o que é novo se torna, inicialmente,mais apelativo aos nossos olhos); falta de tempo para conviver e estar com os amigos (a eterna questão da falta de tempo?); comodismo (afinal posso ir a tantos sítios dentro das quatro paredes do meu quarto!) ;poupança (a conta da internet é certa, mas ir ao cinema e jantar fica bem mais caro)...
Ainda assim, não me parece que estas e tantas outras razões sejam motivo para este fenómeno de adesão.

Esta forma virtual de poder estar com os outros permite ter várias caras, fugir do que se teme em cada um de nós e projectar, na cara (face) que criamos, a pessoa que gostariamos de ser. Podemos ser sujeitos de duas caras ou ser caras de pau ou ser a outra face da moeda. No fundo, entrar no face é de caras. Podemos ter uma quinta, zoológico, empresas de construção, entrar na Mafia, ter amigos no mundo inteiro, mandar smiles,beijos, flores, presentes raros e todo um mostruário de desejos falhados que aqui se concretizam.
Pergunto-me se a febre do Face não será uma forma moderna de confessionário onde desejamos ser redimidos das nossas frustrações. Aqui tem-se a ideia de que tudo é possível, sem haver penas para os nosso pecados e limites para as nossas aspirações.
Será que é assim tão urgente esquecer o real?
Será assim tão grande a nossa solidão?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sobre o olhar...



Tenho descoberto, nesta minha inclusão pelos meandros da pintura a óleo, coisas extraordinárias, nomeadamente sobre a importância do olhar.
A propósito deste quadro de Lucien Freud, dizia-me um colega que visto ao vivo, as cores são de tal forma intensas que, se nos aproximarmos, conseguimos somente ver pinceladas de cor pura e intensa. No fundo, a pintura a óleo, nomeadamente de Freud é muito retineana. Necessitamos de nos afastar, de entrar no jogos de sombra -luz, cor - ausência de cor para ver a totalidade.
Não será também assim com a própria vida?
Cada vez tomo mais consciência que, estando demasiado próximo de um problema nos tornamos miopes, desfocamos a totalidade e o nosso olhar converge apenas para o imediato.
Saber olhar e ver aprende-se ao longo da vida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quanto vale uma palavra?

Foto: Jorge Molder

Tenho andado afastada da escrita. Parece que me zanguei com ela pelo simples facto de me confrontar e obrigar, de um modo mais lúcido, a olhar para mim.

Pelos vistos, preciso mais dela do que pensava.









domingo, 19 de julho de 2009

Presa por um fio

Meatyard, zen twig

A minha vida, a minha triste vida perdeu todo o sentido.
Espero ardentemente por mais um anoitecer, por mais um dia passado, por menos um dia vivido.


terça-feira, 14 de julho de 2009

Estou...

Adam Fuss
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha.
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este pode ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio e, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos
Estou assim..

Álvaro de Campos



"Encara-te a frio, e encara a frio o que somos..."

Fúria fria do destino,
Intersecção de tudo,
Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos,
Consequência de ter corpo e alma,
E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro.

Álvaro de Campos

domingo, 12 de julho de 2009

Não sei...


Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer facto?
Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes
Mas passam sem que o seu passo seja leve.
Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.
Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
Álvaro de Campos

sábado, 20 de junho de 2009

Para reflectir...Ainda da felicidade

Há ofertas assim, que nos fazem pensar sobre o porquê das pequenas grandes coisas.
Este livro refresca-nos a alma e mostra-nos, de uma forma singular, como encontramos tantas vezes momentos de pura felicidade em coisas tão simples como fechar os olhos e sentir o vento baloiçar dentro de nós. "O ser humano anseia tanto pela felicidade, no entanto não é capaz de a suportar por muito tempo. Assim acontece na vida de cada indivíduo, a felicidade cansa-o, torna-o indolente, passado algum tempo de permanência desse estado, a felicidade deixa mesmo de o ser! Trata-se de uma flor bela e encantadora, mas que fenece muito facilmente, a felicidade. "
(De politik des Gewissens)

"Felicidade só existe quando nada exigimos do amanhã e do hoje aceitamos agradecidos o que nos traz - a hora mágica acaba sempre por se repetir. "
(De uma carta inédita, 1922)

"O que há de magnífico na felicidade é o facto de poder surgir inesperadamente mas ainda assim jamais ser adquirível. "
(De Bilderbuch)

"Amedrontados pela angustiante ideia do que nos poderá ocorrer amanhã, deixamos escapar o hoje, o presente e, assim sendo, a realidade. Façamos pois justiça ao hoje, ao dia, à hora, ao momento presente! "
(De uma carta inédita, dos anos 30)

"A infelicidade transforma-se em felicidade se a encararmos pela positiva. "
(De Schriften zur Literatur)

"A nossa vida é uma initerrupta sucessão de ascenções e quedas, de decadência e regeneração, de declíneo e ressurgimento, e assim todos os melancólicos e tristes sinais de decadência da nossa cultura se contrapõem a outros sinais, mais luminosos, que apontam para um novo despertar da necessidade metafísica, para a formação de uma nova espiritualidade, para um apaixonado esforço no sentido de uma nova interpretação da nossa vida. "
(De Kleine Freuden)

"Quando alguém procura, pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. "
(De Siddartha)

"Inclino-me a considerar as pessoas felizes como uns certos sábios, por muito estúpidas que pareçam. Que haverá mais estúpido e produtor de infelicidade que a inteligência? "
(De A infância do Mago)

"O caminhante usufrui do melhor e mais delicado de todos os prazeres, pois, a par de provar o seu sabor,é também ainda conhecedor da transitoriedade de todas as alegrias. Não se detém muito a olhar para trás, para o que perdeu, e em cada lugar onde possa ter passado bons momentos não pretende logo lançar raízes. Há quem viaje por prazer e, ano após ano, regresse sempre ao mesmo lugar, e muitos há que não conseguem despedir-se da contemplação de uma bela visão sem antes decidir que não tardarão a lá voltar. Podem até ser boa gente, mas não são bons caminhantes. Neles há algo do apático enlevo dos amantes e algo de diligente coleccionismo de quem recolhe flores de tília. Espírito de caminhante, porém, não têm, esse jeito tranquilo, alegre mas contido, em eterna despedida. "
(De Bilderbuch, incl. em Gesammelte Werke)


O Homem Lento é um livro que nos fala da história de vida de Paul Rayment, um homem marcado pela perda de um membro num acidente de bicicleta. Reaprender e repensar a vida e o seu sentido faz parte do desejo desta personagem que, perante a falta, opta por recusar uma prótese para preencher o vazio.
Aceitar a perda e integrá-la numa vida nova, passa a ser o desafio desta personagem. Há partes de nós, pedaços de vida que se perdem definitivamente . Não se pode recuperar o que já não existe:
"o destino dá-nos as cartas e nós jogamos as cartas que nos são dadas. Uma pessoa não se lamuria, não se queixa. Era essa, julgava ele dantes, a sua filosofia. Porque razão não consegue então resistir a estes mergulhos na escuridão? A resposta é que ele está em declíneo. Nunca mais voltará a ser o que era. Nunca mais voltará a ter a capacidade do antigamente."
Ainda assim, há outras capacidades que renascem, nomeadamente a nitidez e a clarividência do que se quer, das coisas por que ainda vale a pena lutar, nomeadamente ser honesto e verdadeiro com o que se quer:
"(...) você alega ser uma borboleta, quer ser uma borboleta; mas um dia dá uma queda, uma queda calamitosa, estatela-se no solo e, quando se levanta, verifica que já não pode voar como um ser etéreo; nem sequer pode andar, não passa de um pedaço de carne demasiado sólida." Ainda assim, mesmo que fisicamente limitado, Paul Rayment continua a ter a borboleta dentro de si.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ay, y arriba y arriba, por ti seré...




Praia da Ursa
Nunca fui uma mulher que gostasse apenas de caminhar pela planície. Inclino-me mais para as serras e arribas com subidas e descidas exigentes, que me põem à prova e obrigam a testar os meus próprios limites. Caminhar nestes termos implica, como alguém disse ontem, "afastarmo-nos um pouco para conseguir ver mais de perto". Eu acrescento que nem sempre os caminhos que nos parecem mais acessíveis são os melhores a seguir.Por vezes, revelam-se autênticos labirintos que nos fazem andar em círculos e nos causam um cansaço desmedido. Portanto, perante as dificuldades que uma caminhada apresenta, o mais importante é o objectivo que nos lançamos - chegar tranquilamente onde nos propusemos chegar.
Confesso que chegar ao destino, à praia da Ursa, foi um momento extraordinário. Há muito tempo que não me sentia assim!

sábado, 6 de junho de 2009

Reverberações


Busto de uma criança - Paul Klee

O que fica depois do estilhaço?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tempo descompassado

É difícil encontrar, na minha vida, uma fórmula harmoniosa do compasso do meu tempo. Parece que a minha estrutura rítmica está descompassada.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Escalas do real


Para quem não sabe, parece ser este o meu caso, uma escala é a relação entre as distâncias representadas num mapa e as correspondentes distâncias reais. Ora, se pensarmos um pouco, quer num caso, quer noutro, trata-se sempre de uma relação entre representações do real e nunca do real em si.

Afinal o que é isto do real? Se formos para o campo sentimentalóide do sombrio e escuro, onde me sinto um peixe dentro de água, o que têm os sentimentos de sofrimento, dor, desilusão, angústia, desaire, tristeza, infelicidade e solidão, de real? No fundo, tanta realidade real e simultaneamente tão irreal!

Se atentarmos no campo do irreal, podemos sempre imaginar que, dentro de nós, existe um buraco negro onde, algures à nascença ficou perdido uma espécie de artesão cujo simples papel é tratar-nos da escala. Assim, consoante o seu real estado de espírito, ora nos vai dando uma folga no torniquete das emoções, ora o aperta até ao limite, na tentativa de ele próprio perceber o que significa o limite.

No fundo, este artesão é um brincalhão. Gosta de se divertir a brincar às escalas; reduz ou aumenta a realidade conforme lhe dá na telha. No fundo, é tudo uma questão de relativizar a dimensão do real. Tudo depende do que queremos representar- emoções de grande escala ou emoções de pequena escala. Todas elas, porém, podem ser reduzidas a uma folha de papel A4.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Raio-X de emoções!


Há doenças que se diagnosticam facilmente. Um simples raio-x revela uma mancha num pulmão, um braço partido, um dedo desfeito, um pé torcido, um nariz partido.
Perder um membro, ou qualquer parte de nós, pode constituir uma experiência traumatizante para o ser humano. O que fazer se, de repente, já não há uma perna que equilibre e um pé que deixe caminhar? O que sentir se, inesperadamente, as cores se fundem todas numa monotonia negra e o que se vê passa a ser apenas escuridão? O que esperar se, de repente, os órgãos que nos mantêm vivos se tornam disfuncionais?
Como diagnosticar a incomensurabilidade das emoções que diariamente nos maceram a alma e o corpo?



quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sonho e realidade...

" Não me indigno porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo porque o silêncio é para os grandes. E eu nem sou forte, nem nobre nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor à minha ideia de os achar belos.
Só lamento não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam, (...)
Tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa de minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos."

Bernado Soares

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Um dia triste



Hoje sinto uma lança a despedaçar-me o esterno. O sangue quente a irromper. Os membros a ceder. A alma deslassada.

domingo, 10 de maio de 2009

Se não o viveres também não o podes compreender...

"A chuva só será chuva se te molhar quando cair."

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da Mãe

O momento mais singular da minha vida!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Sonhar





Há tempos pedi a uns alunos, a propósito duma canção que ouvimos cujo tema era o sonho, para me escreverem um pequeno texto sobre o assunto.
Os textos que li fizeram-me pensar sobre o que significa sonhar e o que significa para alguns alunos sonhar. Vamos por partes.
O que significa então sonhar? Será uma condição inerente a qualquer ser humano, isto é, a condição da falta e da insatisfação? Será o sonho uma arma de auto-libertação interior? Será um escape à realidade, uma fuga para dentro?
Eu pensava que o sonho está para o homem como a respiraçao está para a vida. Curiosamente, os alunos fizeram-me perceber que a capacidade de sonhar é muitas vezes acorrentada e esquecida no sótão da memória devido à realidade cinzenta e cruel do percurso de cada um. A dada altura da vida perde-se a capacidade de imaginar, de criar alternativas ao peso pesado da vida real. Porque será que isso acontece?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dá vida à queixa que há em ti


Pega na queixa que há sempre em ti e despe-a! Dá-lhe uma barrela, esfrega-a, espreme-a, estende-a. Será que seca?
Pega nela e faz-lhe qualquer coisa. Emoldura-a e vê o que vês. Será que te revês?
Pega nela e transforma-a, dá-lhe forma, recria-a.
Talvez então consigas tirar mais partido da vida!
(Há alguns anos escrevi este pequeno texto sobre a queixa. Recupero-o , apenas por (des)graça!)

terça-feira, 21 de abril de 2009

O salto

Porque não?

sábado, 18 de abril de 2009

Momentos de paz

Fecho os olhos e sinto o cheiro da terra molhada. 
Baloiço-me no azul.  
O vento  revolta-me o cabelo e os sentidos adormecidos. 
Apanho a estrada cromática que , tendo estado sempre à minha frente, nunca  consegui alcançar.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Caminho de casa

Pintura de Teresa de Freitas

segunda-feira, 13 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

Labirinto

Que bela imagem da vida!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

À deriva...



Qual é o limite humanamente suportável da dor?

Quando se acredita veemente que se perdeu tudo, que se vive simplesmente para gerir problemas que surgem em catadupa, sem direcção, sem rumo, quando se encontra o vazio, o silêncio, a desolação, chega-se ao fundo do poço em que já nada faz sentido. A minha vida perdeu o rumo e o sentido e eu não sei o que faço aqui.





quinta-feira, 9 de abril de 2009

Viver é desenhar sem borracha

Num mail que hoje li, descobri uma frase muito interessante "viver é desenhar sem borracha". De facto, a vida não permite o uso da borracha, isto é, não se apagam da vida os traços que testoam , que desfiguram o desenho por nós projectado. Integrar, no mesmo esboço, o disforme e o belo, o pior e o melhor de nós, pressupõe aceitar que somos imperfeitos e incompletos, capazes de feitos de grande generosidade e simultaneamente de grande mostruosidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A incubação do silêncio

De que é feito o silêncio?

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Pique-nique-ar


Ouve-se o sussuro das folhas...
Sente-se uma brisa amena a percorrer-nos os sentidos.
Deitada, de cabeça virada para o azul do céu, vê-se o mundo numa outra dimensão.

terça-feira, 31 de março de 2009

Considerações sobre uma imagem!

Há vários dias que ando às voltas com esta imagem. Quando fecho os olhos ela acompanha-me e, sempre que quero falar dela, as palavras custam a nascer. Escrever sobre uma imagem é como dar à luz um pouco de nós. Um "ser-imagem" feito de palavras!
Das pinceladas assimétricas surge, a rasgar a monotonia do negro, uma imagem fugaz de infância, onde o desejo de construir papagaios reluzentes, mesmo sem céu para os deixar voar, nos faz flutuar o pensamento.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ruminando...


Deixo as palavras a pairar na minha boca.
Saboreio-as.
Engulo-as e sinto-as a rasgar a garganta, a espalhar-se na minha circulação sanguínia.
Há aquelas de digestão fácil e outras que causam sérios transtornos gástricos, cólicas, que fazem rodopiar de dor.
Ainda assim, sem palavras, de que me alimentaria?

domingo, 29 de março de 2009

Tonalidades

Para quem gosta tanto de admirar o seu umbigo, não resta muito mais que o preto e branco.


sábado, 28 de março de 2009

What does wish mean?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Running in circles




Quantas torções estamos dispostos a dar na vida pensando que iremos chegar a sítios diferentes? Não será o anel de Moebius uma metáfora da própria condição humana? Escolher a ausência de escolha?
Se calhar, o busílis da questão está em pensarmos, ilusoriamente, que nos é dada a possibilidade de escolher a direcção a seguir.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Caminhos

"A palavra pode indicar-nos o caminho, mas percorrê-lo é outra coisa".

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Paisagem de chuva

Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia liquida me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençois como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade - áquela hora parecia que também indefinidamente.Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.O som casual de um carro tardo, áspero a saltar nas pedras, crescia do fundo da rua, estralejou por debaixo da vidraça, apagava-se para o fundo da rua, para o fundo do vago sono que eu não conseguia de todo. Batia. de quando em quando, uma porta de escada. Ás vezes havia um chapinhar liquido de passos, um roçar por si mesmos de vestes molhadas. Uma ou outra vez, quando os passos eram mais, soava alto e atacavam. Depois, o silêncio volvia, com os passos que se apagavam, e a chuva continuava, inumeravelmente. Nas paredes escuramente visiveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto á janela, eu só a ouvia.Nova, fluida, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que ia sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passam a ter lugar e dor na minha desolação.

Bernado Soares

porque sonhas?

Pollock


Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente.

Bernado Soares

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Não sei o quê desgosta

Não sei o quê desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
À vista do porto
E num calmo mar,

Por meu ser me afundo,
Pra longe da vista
Durmo o incerto mundo.


Fernando Pessoa

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O que há em mim é sobretudo cansaço



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo.
Cansaço...

Álvaro de Campos