sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Instantes



As crianças têm um condão de fruir plenamente a realidade, sem a questionar e problematizar.

O outro dia , quando fui buscar o meu filho à escola, senti-me, por uns momentos, entrar neste mundo descomplicado quando, o seu grupo de amigos me conduziu até junto de uma descoberta maravilhosa que tinham feito na hora do recreio. Tratava-se de uma minhoca que se arrastava pela terra e que tentava encontrar, a todo o custo, um buraco para se enfiar. Entre risos e olhos curiosos, houve uma amiga do meu filho que me abraçou, pois todos estavamos de gatas a ver a minhoca, e me deu beijinhos apertados. Disse-me: "cheiras bem" e de seguida deu-me um grande abraço e mais beijinhos. Os outros, todos à minha volta, agarraram-se a mim para que eu brincasse com eles. Foi um momento de pura felicidade. Saí do colégio com um grande sorriso no rosto e pensei que há momentos únicos na vida que guardamos para sempre no livro das nossas memórias.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O meu pompom!

O outro dia, quando brincava com o meu filho, decidimos fazer um pompom. Enquanto entrelaçava os fios numa rodela de papel, pensei como me sentia interiormente desamparada. Ao entrelaçar o fio veio-me à memória que as coisas boas da vida precisam de tempo e de imensas voltas até se atingir um resultado final.
Acabei o pompom e o gosto azedo da minha condição subiu-me à boca. Parece que cá dentro construí um espaço de aridez, de desconforto, de terra ceifada que recusa novas sementes.
Hoje, passado alguns meses, o meu pompom interior começou a desabrochar. Começo a pensar que a vida não tem de ser um desalento, um desencanto e que ainda há espaço para deixar crescer dentro de mim um campo de papoulas viçosas.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O ideal!


A dada altura da minha vida complicada achei que o melhor para mim seria arranjar um homem simples e honesto!
Porque não um padeiro!
Pensei em todos os benefícios que teria; alguém que não pensasse muito sobre as coisas, que não gostasse de ruminar até ao tutano e, ainda por cima, com a vantagem de ter sempre pão fresco. Não seria um deleite acordar de manhã com o cheiro do pão, de pequenas délicatessen como bolos quentes, brioches e outros acepipes?
Reflectindo melhor sobre o assunto pensei até que seria o homem perfeito. Entre beijos enfarinhados e fermentados pelo calor da formalha ardente do amor iria, com certeza, querer meter a mão na massa, deixar de pensar e começar, eu própria, a construir a minha doçaria. Tudo seria perfeito, como nos contos de fadas!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O que não nos mata torna-nos mais fortes!


Até nos fragmentos, destroços, ruínas, devastação resta uma vida que tem uma sintonia própria. Aparentemente desmembradas, ou lascadas, há peças únicas que encaixam apenas na ranhura desenhada pelo seu autor.


domingo, 9 de dezembro de 2007

Bolas!

Reflectida numa bola de cristal, a vida é frágil, vazia, superficial.
Ao primeiro olhar, o que se vê é apenas a sua exteriorização e o seu reflexo, muitas vezes, condicionado pelo olhar do outro. O próprio, isto é, aquele que é e habita o interior da bola, tem , como muitas vezes se diz, a vida nas suas mãos. O que faz com ela é sempre uma incógnita dependendo das múltiplas variáveis que o tempo lhe introduz.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Tingida!


Também somos feitos de cor.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Untitled

Manter-se erguido, mesmo quando o corpo e a alma estão disformes, é àrduo. Há momentos em que simplesmente estar, observar e ser observado se torna demasiado pesado. Quando se instala no corpo a tristeza, a fragilidade, o medo e a angústia, tudo começa a corroer-nos e acabamos por ser estatuetas humanas com recheio de pedra e cal.
Acredito, no entanto, que somo muito mais que o nosso recheio corporal, caso contrário, ficaríamos eternamente presos a uma base que não nos deixaria cair nem viver.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A geometria do touro

Os touros são geométricos na gestão das emoções. Quando as conseguem ruminar e digerir não há floreados, metáforas e adjectivos que embelezem a coisa em si. O fim não é nada mais se não o fim.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O coador!

O coador não é um mero utensílio de cozinha. É, digamos assim, uma espécie de orgão que nos falta desde a nascença. Tudo seria bem mais fácil se ao primeiro abrir de olhos para o mundo tivessemos um orgão que nos coasse a dor - um coa-dor. Uma espécie de firewall interna que aparasse as balas que a vida, as pessoas que nos rodeiam e nós próprios vamos disparando violentamente contra o nosso íntimo.
Hoje tenho a plena noção que o meu coador não foi implantado atempadamente e que a minha firewall perdeu há muito a actualização. Deve ser por isso que já não estou a aguentar a quantidade de virus com que sou diariamente invadida. Começo a perder velocidade e a dar, demasiadas vezes, erros fatais.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Desencaixe

Presentemente lido com alguns problemas de encaixe. Tal como as crianças, que por tentativa e erro, vão encaixando as diferentes formas geométricas nas respectivas ranhuras, tento encaixar as dificuldades , no puzzle das minhas emoções, consoante a forma e intensidade com que se me apresentam. Fico, no entanto, sempre com a sensação que atrás de uma dificuldade vem outra e já perdi a noção de forma geométrica, de ranhura, de encaixe e tudo está de pernas para o ar. Tenho a vida desarrumada e não sei onde me encaixar. Não encontro saída para quase nenhuma das formas variadas de dor e sofrimento que me vai na alma. Por mais que tente volto sempre ao mesmo - ao buraco. Isto das emoções é muito complicado. É quase tão complicado como tentar encaixar um quadrado na ranhura de um círculo.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Untitled

Os fantasmas e a vida que trazemos cá dentro nem sempre são agradáveis de olhar e de ver.
Há momentos em que tudo se torna demasiado real, intenso e quotidianamente insuportável. Talvez esteja nesta fase da vida onde apenas me limito a gerir o compasso estéril e monótono do tempo- sem rumo, sem alegria - cem lamentos!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O Voo


O trajecto, desde o ponto inicial da nossa viagem até ao seu terminus, nunca é pacífico.

O que nos impulsiona e o que nos faz cair prende-se com a aspiração que cada um tem em preencher um sentimento de falta ou incompletude.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Pensamentos outonais


O que se vê quando se olha?

O modo como absorvemos o exterior é partilhável, descritível, comunicável mas, no seu âmago, intransmissível.

Quando olho para as alamedas pálidas de árvores outonais, para as folhas timbradas de cor de fogo, para o restolho matizado da terra, para a paz cromática do frio do entardecer, as sensações que me invadem são indizíveis ao outro. Olha-se para a mesma coisa com uma roupagem diferente, com tonalidades da alma diferentes, com etapas de crescimento diferentes, com olhares diferentes.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Solidão


Quando era menina já me sentia só. Vivia, para me defender da solidão, com amigos imaginários. Para cada amigo havia também um eu diferente. Fui-me dividindo e falando com eles, isto é, comigo - um ser que continha sempre dois. Este padrão de comportamento agarrou-se-me à pele e hoje, para superar os meus medos e conseguir viver, continuo a recorrer ao imaginário. Construo histórias, invento personagens, crio enredos e, depois, deixo-me levar transfigurando o meu real em ideal.
Este passatempo não ameniza, no entanto, o meu vazio. Apenas o distrai.

domingo, 28 de outubro de 2007

O amor...

O amor é uma invenção
uma desorientação
uma fuga.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Registos


Quando os passos desafinam e a harmonia se fractura
a pegada que estampamos não desvenda, de todo, a dissonância ritmica da dor.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O bilhete!

Hoje fui renovar o meu BI. Sentada, à espera da minha vez, pensei que o bilhete é fácil de renovar mas a identidade não. Dei por mim a querer fugir daquele local que me oprimia. Depois vi que não era o local mas o motivo que me levou até ele (não é por acaso que adio a minha ida há várias semanas). Afinal o que fazia eu ali, afinal o que fiz eu da minha vida, o que estou eu a fazer? Senti-me completamente perdida, desnorteada, desmembrada, ferida, desiludida comigo mesma. Porquê? Porque ando em busca da minha identidade, do meu eu e constato que, afinal, a mudança do estado civil em nada me ajuda nesta cruzada.
Sinto-me à beira do precipício, da perda de lucidez e da capacidade para analisar racionalmente as coisas. Sei que não posso cair, que não me permito cair mas isso causa-me uma dor atroz.
Na minha infância tinha medo de dormir às escuras. Às vezes acordava ao meio da noite e, apesar de saber que estava numa cama, a minha cama, não conseguia distinguir onde estava a cabeçeira, a almofada... assustava-me imenso perder a noção de espaço ou não me encontrar na ordem normal das coisas.
Hoje, às claras, novamente sozinha, parece que me encontro a (re)viver o mesmo sentimento de pânico, de não saber encaixar-me no meu espaço, de perder a noção de mim mesma. A diferença é, no entanto, abissal. Já não há uma mãe que nos aconchega e que entra no quarto e nos guia novamente pelo caminho da luz. Agora sou eu que, bem ou mal, preciso de lidar com esse pânico, com essa desorientação, no fundo com o que eu própria fui capaz de me infligir.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Self Portrait.

My inland empire!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Obá... o baú!


Quando conto uma história ao meu filho sinto-me como se abrisse o baú das minhas memórias e, de lá, retirasse o aroma das palavras que, na minha infância, nunca tive oportunidade de fruir.
O meu filho gosta de palavras. Mesmo não percebendo o seu "real" significado, apercebe-se que servem para fazer construções imaginárias com personagens fantásticas e aventuras intermináveis.
No fundo, as palavras são tijolos que nos ajudam a construir a nossa identidade, a nossa casa interior, o nosso porto de abrigo, a nossa história.
O que faríamos sem as palavras!